Nada de carne vermelha e muito chocolate. Embora esses hábitos sejam considerados característicos da Semana Santa e da Páscoa, as celebrações ligadas ao feriado envolvem tradições e representações milenares relacionadas, principalmente, à religião cristã, a qual tem na paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo seu principal dogma. O pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA), Heraldo Maués, explica as especificidades do cristianismo que tornam a Semana Santa diferente de outros feriados católicos.
Para o antropólogo, apesar de existir há mais de dois mil anos, o cristianismo e suas tradições ainda permanecem na cultura brasileira. "A Semana Santa faz parte da tradição brasileira a partir de uma forte influência do catolicismo em nossa sociedade que, embora tenha declinado nos últimos anos, ainda se mantém hegemônico. Até o ponto que posso perceber, ela constitui uma espécie de preâmbulo para a Páscoa, esta, sim, a mais importante celebração católica", afirma.
Na opinião de Heraldo Maués, tradições como as encenações da Paixão de Cristo e as procissões tradicionais são bastante características da região, apesar de não serem exclusivas amazônicas.
Transformação - Segundo o antropólogo a figura de Jesus é o aspecto que distingue o cristianismo de outras religiões e cultos messiânicos. Ele explica que "trata-se da ideia de uma profunda transformação no mundo a ser operada pela morte e ressurreição de um herói cultural, que permite a ressurreição de todos os homens, que, então, serão premiados ou condenados por sua condição terrena."
Apesar de ser conhecido como uma celebração católica, a Semana Santa e a Páscoa também se encontram em outras vertentes do cristianismo. "Igrejas do protestantismo histórico, embora se considerem não ritualistas, podem guardar e respeitar esses rituais, dando importância, sobretudo, à Páscoa", afirma o professor da UFPA.
"As celebrações da Semana Santa e Páscoa estão envoltas por muito simbolismo, entre eles, o jejum que precede a refeição de domingo", revela o antropólogo da UFPA. A prática surgiu na Idade Antiga, quando carne vermelha era apenas consumida em banquetes e, por isso, associada à gula pela Igreja Católica. "O peixe substitui a carne nos rituais católicos, que são prescritos – hoje, já de forma bem moderada - durante a Semana Santa, através do jejum e da abstinência de carne vermelha", esclarece o professor.
Apesar do nome, as duas celebrações religiosas não acontecem ao mesmo tempo. A páscoa cristã é celebrada no primeiro domingo de lua cheia depois do equinócio de outono. Enquanto a páscoa judaica inicia na primeira lua cheia do equinócio, independente do dia da semana. Por isso, dificilmente o Pessach e a Páscoa cristã acontecem no mesmo dia.
Para seus seguidores, a “Quaresma” também é um período de meditação, mas com o significado de perigo e desproteção, pela ausência temporária das entidades das casas de culto.
A antropóloga Anaiza Virgulino, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará (IFCH/UFPA), que há anos se dedica aos estudos dos cultos de matriz africana, explica que esse é, também, um período marcado pela “penitência”, quando o costume dos católicos em visitar sete igrejas a pé, na Sexta-feira da Paixão, também é seguido por esse grupo religioso. O tempo da Quaresma, cujo o início depende de cada casa de culto, se encerra sempre no Sábado de Aleluia.
Texto: Renan Mendes – Assessoria de Comunicação da UFPA
Fotos: Alexandre Moraes
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